sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Liderança de Russomanno tem prazo de validade?


Em ano eleitoral todos tentam opinar sobre quais serão os eleitos, principalmente na majoritária; e com os veículos de comunicação não é muito diferente, já que é neste período que surgem os chamados “cientistas políticos”, sociólogos ou mesmo jornalistas especialistas no assunto que lançam previsões e traçam cenários que muitas vezes tornam-se irreais no decorrer dos dias.
Nesta eleição alguns especialistas deram uma de guru político e previram: “liderança de Russomanno dura até dia 30”. Segundo a coluna ‘Mosaico Político’, do jornalista Pedro Venceslau, publicada no jornal Brasil Econômico, a posição do candidato à prefeitura de São Paulo seria radicalmente alterada a partir do dia 30 de agosto. A afirmação teria sido embasada na opinião do sociólogo Antonio Lavareda e do cientista político Carlos Novaes. Para os especialistas, o tempo de TV iria derrubar Celso Russomanno.
Não é de se estranhar que os cientistas políticos têm caído em descrédito nas últimas décadas, recentemente o jornalista e economista Luis Nassif republicou um texto que discute o assunto. No artigo escrito pela professora de Ciência Política da Universidade Northwestern (EUA), Jacqueline Stevens, no The New York Times, ela afirma que os cientistas políticos estão defensivos porque a Câmara aprovou uma emenda a um projeto de lei eliminando subsídios da National Science Foundation para a classe e que, em breve, o Senado poderá votar uma legislação semelhante. Para a professora a discussão não é absurda e deve ser levada em consideração, Jacqueline lembra ainda que a ciência em questão não é tão exata assim.
Mas se essa não é uma ciência exata e nem mesmo é considerada ciência por alguns, por que então a imprensa insiste em considerar a previsão de alguns como verdade absoluta? É de se estranhar que em pleno período eleitoral certos veículos insistam em publicar afirmações que mascaram a verdade e conduzam o leitor a concordar com certos especialistas. Respeito estes profissionais, mas suas opiniões não são absolutas, mesmo porque são conjuntos de dados pressupostos, que na maior parte dos casos não podem capturar a realidade nada simples de nossa sociedade.
As previsões de muitos especialistas estão completamente em desacordo com a realidade. Faltando pouco mais de um mês para as eleições, o ibope divulgou em 31/8 (um dia após o limite dado nas previsões), a terceira pesquisa de intenção de voto sobre a disputa pela prefeitura de São Paulo após a definição dos candidatos, e novamente Russomanno continua na liderança, só que desta vez ele aparece em primeiro lugar com 31% das intenções de voto, seguido dos candidatos Serra (20%) e Haddad (16%). 

Os dados comprovam a afirmação popular de que a política é mesmo uma caixinha de surpresas. Na verdade, esta eleição tem mostrado o quanto à população tem estado insatisfeita com os mesmos nomes e as mesmas promessas. Os resultados das urnas muitas vezes vão contra análises e estudos, e isso ocorre porque vivemos em uma sociedade complexa, heterogênea e pensante. E é exatamente por isso que não há como falar em termos de previsões políticas precisas, já que muitas dessas análises foram completamente furadas, a exemplo do que ocorreu durante a Guerra Fria (1945-1991), quando cientistas políticos insistiram na afirmação de que a antiga União Soviética iria persistir como ameaça nuclear aos Estados Unidos. Anos depois, pesquisadores financiados pela NSF previram que uma organização semelhante a Al Qaeda iria mudar a política global, mas novamente nada aconteceu. 
O filósofo da ciência Karl Popper (1902-1994), respeitado nas diversas ciências e autor do livro "A Lógica da Descoberta Científica", ridicularizava certas pretensões das ciências sociais, e disse: "Profecias de longo prazo podem ser derivadas de previsões científicas condicionais apenas se elas se aplicam a sistemas que podem ser descritos como bem isolados, parados, e recorrentes. Estes sistemas são muito raros na natureza, e a sociedade moderna não é um deles”. De fato, Popper entendia que a complexidade da sociedade não nos permite fazer qualquer tipo de previsão estanque. Creio que qualquer investigação destinada a algum tipo de previsão política sempre estará fadada ao fracasso, isso porque a ciência política não se resume em simples previsões, mas na análise da história política e social de muitas gerações. Conhecimento nada tem a ver com estudos de probabilidades e dados estatísticos.
Infelizmente, a ciência política apresentada de maneira escancarada na grande imprensa, na maioria das vezes, nada tem de científico, mas na verdade trata-se de algo ideológico e que deve ser submetido à crítica. O prazo de validade dado à posição de Russomanno nas pesquisas eleitorais deveria ser algo levado em consideração por certos analistas políticos, esses sim, parecem possuir um conhecimento cientifico com prazo de validade vencido.
    
*Gilmaci Santos é deputado estadual pelo PRB-SP e líder da bancada na Assembleia.

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