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quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Jornalistas & Cia publicou hoje edição especial em homenagem ao Boechat


Muito honrada em participar, reproduzo aqui o texto em que conto um pouquinho da nossa convivência.
Chernenko
“Belisário, onde nasceu Papai Noel?”
Ele ficava de um lado, eu do outro, em boxes com divisórias de vidro transparente que davam para um corredor amplo, onde uma câmera com tripé estava permanentemente à disposição para as chamadas ou eventuais entradas ao vivo do telejornal. Era a redação da TV Band no Rio. Boechat trabalhava ainda apenas como comentarista no telejornal noturno da emissora e apresentávamos, pela manhã,  o programa ao vivo da rádio BandNews, que ia desbancando em audiência a antes toda poderosa CBN.
Demorei um pouco para responder. Devido ao adiantado da hora, umas 22h, minha resposta também foi gritada, atravessando o espaço e provocando risadas dos colegas, apesar do tom curto e grosso: “Papai Noel nasceu na Latônia”.
Era uma rotina louca. A apuração que eu fazia das notas da coluna dele – uma página inteira no Caderno B de um Jornal do Brasil já bem agonizante – era feita depois do Jornal da Band terminar e enviada através de uma internet ainda à meia bomba, sempre com o pessoal do JB ameaçando encher o espaço com “calhaus” devido ao atraso para o fechamento.
Depois de mais de 20 anos de convivência, eu não estranhava nada vindo do Chernenko, apelido dado ao Boechat por nosso grande amigo em comum, o empresário Paulo Marinho. Quando era para cobrar, ele realmente não ficava nada atrás de um Presidente do Soviete Supremo... e ainda mais se tratando de apuração...
Finalmente fechada e enviada a coluna, fui até o box dele dar boa noite e ao me despedir disse: “Amigo, não fica triste, mas tenho que te contar uma coisa”. Já relaxado, com as muitas missões do dia cumpridas, ele me ofereceu carona e, como sempre, solidário, perguntou: “Algum problema, posso ajudar?”. E eu: “Não, não é nada muito grave. Só tenho que te contar que Papai Noel não existe”.
Um palavrão e várias gargalhadas antecederam a explicação detalhada do porquê tinha me perguntado aquilo para uma nota que acabou nem sendo escolhida por ele para publicação.
Ele era assim: um chefe que cobrava implacavelmente; um jornalista com um brilho tão especial que no fim das contas acabava sempre, sempre, sempre tendo razão (ainda quando queria saber onde papai Noel tinha nascido); um colega que respeitava os demais ainda que hierarquicamente inferiores; um ogro de coração bem mole, pronto para ajudar em nossos problemas comezinhos ou realmente graves.
Uma das lições mais importantes que aprendi com esse mestre, quando ele era editor-chefe e eu editora de Cidade no Jornal do Brasil, foi que se é ovo não é notícia. Ovo? Sim: ovo no cu da galinha. Tem “se”, tem “estuda-se”, tem “a previsão, a proposta, a intenção”? Então é ovo.
Infelizmente, eu estava almoçando hoje em frente ao noticiário da TV e não teve talvez. Lá se foi você amigo.  E eu tenho que te contar uma coisa: a morte, trágica, repentina, absurda, dos que mais queremos que não morram, essa existe. E eu estou muito triste.
Por algum tempo, bastante tempo, não vai dar para eu fazer aquela “pausa refrescante” de que você tanto gostava no nosso ao vivo.
Obrigada por tudo.