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quinta-feira, 20 de março de 2014

Claudia viveu e morreu como uma daquelas pessoas que ignoramos todos os dias

Os órfãos no enterro

Vamos esquecer Claudia Ferreira em alguns dias, ou em algumas horas. Aconteceu com o ciclista pobre morto pelo carrão do filho de Eike.
Choramos, esperneamos e rapidamente esquecemos: é assim. Não temos tempo a perder. Somos bacanas e temos muito que fazer.
Por isso devemos refletir sobre o caso com urgência, ou ninguém estará mais minimamente interessado no assunto.
Claudia foi o Brasil que ninguém quer, que ninguém enxerga. É o Brasil dos ignorados, dos desprezados, dos que só vemos quando nos servem pessoalmente na faxina de casa, na mesa de um bar ou em coisa do gênero.
E assim será enquanto não houver uma mudança radical na mente do brasileiro.
Na Escandinávia, ninguém tem o direito de se julgar melhor que alguém apenas porque é mais rico. Um lixeiro lá é respeitado como um integrante vital da sociedade.
É uma cultura oposta à que vigora no Brasil. Por trás do igualitarismo notável dos escandinavos está, como falei tantas vezes no DCM, a Janteloven – as leis de Jante.
Jante é uma cidade fictícia criada por um romancista local décadas atrás, e ali a regra número 1 era exatamente aquela: ninguém é melhor ou pior que ninguém por causa das posses.
No Brasil, os desvalidos não existem. Como disse o marido de Claudia, ela foi tratada como “bicho”.
Alguns se indignaram não com o tratamento dado a Claudia, mas com a comparação, e é verdade: os animais não são tratados assim.
Numa frase infame, Boris Casoy foi flagrado, algum tempo atrás, dizendo que lixeiros não podiam ser felizes. Podem – mas não no Brasil.
Talvez o maior fracasso de Lula e Dilma tenha sido o de não transformar a mente do brasileiro. Continuamos a ver as Claudias, ou os Amarildos, como se fossem nada. Mais precisamente: continuamos a não vê-los.
Só a polícia vê. Em geral, para matar.
O sofrimento, a humilhação, a fome, as privações — a subvida chegou ao fim para Claudia. A pior coisa que pode ocorrer a alguém é nascer, escreveu Schopenhauer. Parece que ele pensava nas Claudias do mundo.
Não acredito em Deus, mas gostaria que ele existisse para proporcionar em algum lugar uma reparação a quem veio apenas para penar, como Claudia.
Mas a história de Claudia não termina nela.
São quatro filhos, e lamentavelmente eles seguirão um caminho muito parecido com o da mãe, porque é assim que são as coisas no Brasil.
Tivesse nascido na Escandinávia, ela estaria andando de bicicleta, sorridente, cabelos tratados, roupas bonitas, dentes impecáveis. O Estado lá cuida de todos, não apenas dos privilegiados.
Seus quatro garotos estariam em boas escolas, falariam línguas, dormiriam em camas acolhedoras e jamais lhes faltaria comida na mesa.
Mas não.
Claudia nasceu no Brasil, para seu infortúnio. E viveu e morreu como uma brasileira invisível, como uma daquelas pessoas, tantas, que a gente ignora todos os dias, todos os dias, e todos os dias.

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