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quarta-feira, 2 de maio de 2012

Dilma e os bancos: presidente resolveu dar uma de “presidenta Cristina Kirchner”. Certamente um mau momento

Levante a mão quem não acha os juros bancários no Brasil escandalosamente altos! Creio que nem os banqueiros se dignaram a mover o braço. São, sim! Quais as razões? Os especialistas se dividem quanto às causas. Deve haver, porque é da natureza, certa cupidez dos “companheiros banqueiros” etc e tal. Apelo a alguma ironia porque esse é um debate antigo, que nunca chegou a um consenso. Costuma marcar fronteiras entre pensamentos econômicos. Sem me alinhar com grupos, alinho-me com aqueles, no entanto, que não veem motivos técnicos para o estratosférico spread vigente no país. Muito bem! Governos interferem, sim, nessas coisas. Afinal, são também a autoridade monetária, e suas ações são decisivas na formação dos preços — muito especialmente do preço do próprio dinheiro. Dito isso, quem era aquele que vimos ontem na TV? Parecia Dilma, mas se comportava como Cristina Kirchner.
O governo vem de uma escalada de pressão contra os bancos, tentando forçar a queda do spread. Dilma não quer ver repetido em 2012 o baixo crescimento do ano passado. Considera que o governo está fazendo a sua parte (não é bem verdade), inclusive por intermédio dos bancos públicos, mas que os privados estão sabotando esse esforço. Muito bem! Digamos que tudo isso fosse assim mesmo. Será que cabe à presidente, abusando de sua altíssima popularidade (segundo as pesquisas), satanizar os bancos em rede nacional? Ora, nem bancos nem setor nenhum da economia ou da sociedade!
Tratou-se de um discurso completamente fora do lugar. Claramente, o que se via ali era a líder conclamando o povo a pressionar os bancos. “Por que, Reinado, bancos não podem ser pressionados?” Ora, claro que sim! Para tanto existem os partidos, as lideranças políticas, as entidades sindicais, os tais “movimentos sociais”… Escolham aí os agentes. Uma coisa eu sei: não cabe ao governante fazer uma intervenção daquela natureza, muito especialmente no discurso do Dia do Trabalho. A mensagem foi clara: trabalhador de um lado (e ela junto) contra banqueiros do outro.
Não deixa de ser uma ironia da história. Em 2010, escrevi aqui, o PT usou o “discurso do medo” contra o então adversário, José Serra. Nos bastidores, o partido explorou a valer, num recado aos banqueiros, o suposto viés intervencionista do tucano. Por irônico que possa parecer, o partido de Lula dizia aos “companheiros” do sistema financeiro, ainda que com outras palavras, o seguinte: “Cuidado! Serra é muito… esquerdista!!!” Nao é segredo para ninguém que os bancos fizeram uma escolha: Dilma! Um pragmático poderia dizer que eles fizeram muito bem, do seu ponto de vista, em escolher o PT: vivem nove anos verdadeiramente dourados.
Mas sabem como é… O PT, cedo ou tarde, sempre volta à sua natureza. E Dilma foi para o confronto, na hora errada, com uma fala errada. “Tá com peninha dos banqueiros, Reinaldo Azevedo?” Eu? Como disse uma conhecida certa feita, em matéria financeira (em outras áreas tudo bem!), é indecente ter pena de alguém mais rico do que você… O que estou criticando é a inoportunidade do discurso, o tom, a escolha. Qual é efetividade daquilo?
Corrupção
Dilma também aproveitou o pronunciamento para demonstrar que o governo está acima das lambanças da política — que ela voltou a chamar de “malfeitos”; os corruptos e corruptores foram tratados como “malfeitores”. Com a popularidade nas nuvens — e é evidente que as lambanças no Congresso contribuem para isso —, tratou aquele rolo como “coisa dos outros”, como se a Delta não fosse  um problema do governo federal. Tanto é  que os petistas e o próprio governo se esforçam para tirá-la da CPÌ, do noticiário, do mundo se possível…
Terá Dilma inaugurado ontem uma nova fase, mais — não vai dar para evitar a palavra — populista? Uma liderança política com elevadíssima popularidade que vai à TV, por ocasião do Dia do Trabalho, e decide satanizar banqueiros e atacar os “malfeitores”  pode estar fazendo uma escolha política. Uma má escolha. Vamos ver.

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