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sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Adolescentes se prostituem por R$ 5,00 na Rio-Santos‏ - Parte delas “vende” o próprio corpo para comprar crack ou para alimentar os próprios pais



 


Adolescente pede carona para atrair clientes na Rio-Santos, altura do bairro Indaiá, em Caraguatatuba. Muitas se prostituem para comprar crack

Caraguatatuba - Um trecho da rodovia Rio-Santos (SP-55), em Caraguatatuba, transformou-se nos últimos anos em local de prostituição e tráfico de drogas, onde um programa “completo” pode sair por R$ 10,00. O oral sai por R$ 5,00. A maioria das garotas de programa tem entre 13 e 17 anos. Elas disputam pontos com travestis num trecho de dez quilômetros, entre o bairro Porto Novo, na região sul, até o trevo de acesso ao centro de Caraguatatuba.
Algumas adolescentes afirmam que começaram a se prostituir para tornarem-se independentes. Mas há as que optaram por fazer programas para comprar drogas, principalmente maconha e crack. Dependendo das condições do tempo, algumas chegam a faturar cerca de R$ 500,00 por semana.

As adolescentes costumam circular em duplas pelo acostamento da rodovia pedindo carona aos motoristas, com roupas curtas e insinuantes. Mas para quem já conhece o trabalho delas, basta parar nas proximidades do “ponto” e buzinar. Elas atendem prontamente. No caso de carona, o “convite” para o programa é feito por elas durante o trajeto. Geralmente os programas são feitos dentro do próprio veículo em ruas escuras e sem movimento no bairro Indaiá, próximo a uma igreja católica. Mas elas também atendem em motéis, caso o cliente solicite. As garotas de programa sugerem aos motoristas quais ruas são mais “seguras” para estacionar o carro. 






Adolescente aguarda clientes à beira da Rio-Santos, em Caraguatatuba. Iniciação na prostituição aos 10 anos


A adolescente P.C. tem 16 anos e iniciou na prostituição aos 10. Ela fatura cerca de R$ 150,00 por semana pelos programas que acerta à beira da Rio-Santos. Metade do dinheiro vai para a compra de roupas e sapatos. O restante usa para criar seu filho de dois anos. “Minha mãe nunca teve condições de me dar roupas novas, mas essa foi a única forma que encontrei para me tornar independente e ter minhas próprias coisas”, disse. De acordo com a adolescente, sua mãe sabe sobre sua condição. “Ela até me incentiva pois ajudo dentro de casa com comida”, declarou.
P.C. conheceu seu pai no ano passado, quando tinha 15 anos. “Pedi para minha mãe para conhecê-lo. Ela evitava nosso encontro por ele ser violento. Hoje vivo com meu padrasto e ele passa a mão em mim enquanto estou dormindo. E como sempre acontece nesses casos, minha mãe também não acredita que ele tem interesse em mim”, confidenciou.


“Faço programas esporadicamente, quero sair desta vida, mas a situação hoje em dia está difícil”, queixa-se. P.C. é analfabeta e nem se lembra qual foi a última série que completou na escola. “Não sei ler e nem escrever. Mas me lembro que eu pulava o muro da escola para me prostituir”. Além da pouca idade, P.C. também não consegue emprego devido à falta de escolaridade. “Isso dificulta bastante. Enquanto não consigo um emprego, tenho que continuar nesta vida”, lamenta.

“Sortuda”

A.P.S. acompanha a adolescente P.C. nos programas. Ela reside em Caraguatatuba há quatro anos e faz programas na Rio-Santos há cerca de cinco meses. Tem três filhos, de 3, 4 e 14 anos e não sabe quem é seu pai. Perdeu a mãe em 1995 e hoje gasta cerca de R$ 50,00 por semana com maconha, droga com a qual diz ser viciada desde os 11 anos.


Há cinco anos começou a fumar crack, mas garante que parou há cinco meses, mesmo período em que se iniciou na prostituição. “Emagreci 22 quilos em poucos dias”. Ela diz que adquire semanalmente cerca de 50g de maconha para manter o vício. “Com o restante dos cerca de R$ 250,00 que faturo por mês, pago o aluguel da minha casa e compro roupas. Quando o mês é bom e sobra algum dinheiro, mando para meus filhos”, explica.


“Mas sou sortuda, já cheguei a tirar R$ 300,00 em uma só noite”. Sua família, que mora em São José dos Campos, no Vale do Paraíba, acredita que A.P.S. está trabalhando como empregada doméstica em Caraguatatuba. “Meu sonho é ser advogada. Tenho segundo colegial completo. Já tive uma vida boa, trabalhava na Johnson”, disse ela, se referindo à empresa Johnson & Johnson, em São José dos Campos.


Seu vício com as drogas acabou resultando em sua prisão por duas ocasiões. “Peguei um mês e seis dias de cana em Ubatuba porque ‘segurei’ um BO (boletim de ocorrência) quando tinha 18 anos, por furto. Eu morava com um rapaz em uma pensão e ele chegou lá com um computador, máquina registradora e R$ 500,00”. A.P.S. foi presa por tráfico de entorpecente em 1995 em Santa Branca, onde ficou três anos reclusa.

Oral sem preservativo

R., de 17 anos, é uma das adolescentes que fazem programas para adquirir drogas. Viciada há seis meses em crack, emagreceu 18 quilos em uma semana. Gasta quase todos os R$ 100,00 que fatura por noite com a droga, em média. “Minha família é bem de vida, mas ninguém sustenta meu vício. Me prostituir foi a única forma que encontrei para ganhar dinheiro fácil e comprar as pedrinhas”.


“Costumo cobrar R$ 10,00 para fazer um programa completo e R$ 5,00 o oral. Se o cliente quiser, faço o oral sem camisinha. Mas o programa completo não faço sem o preservativo”, garante. Sua amiga V.T.T., 15, também faz sexo oral sem preservativos. “Os rapazes até pagam mais. Mas, se você pede para usar, eles desistem. Preciso correr o risco ou minha família passa fome, pois todos em casa estão desempregados”.


A adolescente V.T.T. diz para seus pais que está fazendo “bico” em um quiosque da avenida da praia. “Como moro no lado oposto ao local onde faço programas, na zona norte de Caraguá, não corro o risco de ser vista aqui, pois eles nem saem de casa. Mas na semana passada uma amiga da minha mãe me viu debruçada na porta de um carro, conversando com um cliente e eu tentei disfarçar, se minha mãe souber, estou frita”.


Embora ela faça programas para ajudar em casa, a adolescente confessa que “de vez em quando” compra crack. “Dou uns pega (sic) mas só de vez em quando para não me viciar, pois se isso acontecer, o dinheiro vai todo para a droga e preciso manter minha família. Tenho um irmãozinho de um ano e seis meses que chora quando não tem leite. Morro de dó dele”, diz V.T.T., com lágrima nos olhos.

Internet é ferramenta mais usada para encontros

Caraguatatuba – Grande parte dos encontros entre garotas de programa e clientes é marcada pela internet, por meio de salas de bate-papo ou sites específicos de garotas de programa. Elas acreditam que esta ferramenta é um meio mais “seguro” para contatar possíveis clientes. “Todos os dias entro na internet para buscar clientes, mas isso não diminui o perigo, pois converso com pessoas que nem estou vendo”, afirma Rebeca (nome fictício), de 17 anos, que mora em Caraguatatuba.


Luciana (nome fictício), de 21 anos, também de Caraguatatuba, se prostituía aos 16. Depois de ser descoberta pelo namorado, acabaram fazendo programas juntos. “A gente entrava na internet para buscar clientes. Ou era eu sozinha ou íamos como casal, pois tem casais que gostam de trocar de parceiros. E pagam mais. Ele acabou pegando gosto pela coisa e começou a fazer programas sozinho com as coroas”, revela.


Quem procura clientes nas ruas da cidade diz se arriscar mais. É o caso de Ana Lúcia (nome fictício), de 17 anos. Ela diz que é vigiada pelos cafetões, que a seguem. Caso o cliente não pague pelo programa, ela tem que “recompensar” a perda fazendo programa com o próprio cafetão. “Eles nos obrigam a pedir o celular do cliente emprestado com a desculpa de que temos que ligar para nossas mães e que estamos sem crédito. Geralmente os clientes emprestam. Na verdade, ligamos para os cafetões. Eles anotam o número dos clientes quando a chamada não é restrita. Caso dê alto errado e os clientes saem sem pagar, os cafetões ligam depois extorquir dinheiro”.

Leia abaixo relato das personagens entrevistadas pela Agência Facto. Os nomes são fictícios, para preservar suas verdadeiras identidades

“Somos exploradas sexualmente e financeiramente”

Lúcia, 17 anos




Sob chuva, jovens pedem carona em busca de clientes em Caraguatatuba


“Estou nessa vida há pouco mais de um ano. Ninguém quer vender seu próprio corpo, mas quando estamos desempregadas e com filhos para criar, não vemos outra saída. É uma vida que não desejo a ninguém, primeiro porque perdemos a dignidade. Segundo, porque é muito arriscado. Convivemos com pessoas violentas e traficantes. O pouco que ganhamos temos que dividir com os cafetões. Eu atuo no calçadão de Caraguá. Tenho que atrair os clientes para algum daqueles barzinhos, pois é ali que os cafetões ficam nos observando. E eles bolaram um esquema de vigilância. Ficam na esquina e circulando entre as pessoas de olho na gente. Eles nos obrigam a pedir o celular do cliente emprestado com a desculpa de que temos que ligar para nossas mães e que estamos sem crédito. Geralmente os clientes emprestam. Na verdade, ligamos para os cafetões. Eles anotam o número dos clientes quando a chamada não é restrita. Caso dê alto errado e os clientes saem sem pagar, os cafetões ligam depois extorquir dinheiro deles, sob a ameaça de contar para suas esposas ou famílias. Caso o número dos clientes não apareça, os cafetões nos seguem até o motel. Caso o cliente não pague e não há como chegar até ele para ameaçar, os cafetões nos obrigam a fazer programa com eles para que possamos, de alguma forma, recompensar o prejuízo que tiveram. Somos exploradas sexualmente e financeiramente”.

“Antes de cada encontro, rezo para Deus me proteger”

Rebeca, 17 anos

“Todos os dias entro na internet para buscar clientes em salas de bate-papo de Caraguá. É uma maneira mais fácil e rápida, sem eu precisar me expor nas ruas. Mas isso não diminui o perigo, pois converso com pessoas que nem estou vendo. Dou meu telefone, eles me ligam, perguntam o preço. Mas primeiro eu marco o encontro em locais bem movimentados, como barzinhos, pois caso eu desista, fica mais fácil eu sair daquela situação. Não saio com qualquer um. Sou bonita e apesar do que eu faço, tento me valorizar. Mas se eu topar fazer o programa, antes vou ao banheiro para rezar e pedir proteção. Antes de cada encontro, rezo para Deus me proteger. Mesmo assim, vou super tensa. Nunca sabemos se o cara é uma pessoa boa, se é violenta, se vai me matar. Entrei nessa vida por opção. Minha família é bem de vida, tem muito dinheiro, mas gosto de comprar as minhas coisas, pois meus pais não me dão dinheiro. Eles nem sonham o que eu faço. Tem um cliente que me banca, sou amante dele. Ele é casado, tem filhos e é infeliz no casamento. Me dá tudo o que quero e preciso. Ele já me pediu para sair dessa vida, que até abandonaria a esposa por mim. Mas tenho 17 anos e ele 48. Não rola”.


“Meu namorado descobriu que eu fazia programas. Acabou virando meu cafetão e também faz programas”

Luciana, 21 anos

Garota se coloca na frente dos carros para chamar atenção dos motoristas. Trecho de 10km da Rio-Santos é usado para a prática da prostituição

“Meu namorado e eu nos conhecemos numa balada aqui mesmo em Caraguá, na Martim de Sá, quando eu tinha 16 anos. Mas antes eu já saía com uns carinhas e cobrava para fazer sexo com eles. Eu não me considerava garota de programa pois só fazia isso de vez em quando, por falta de dinheiro. Só não achava justo me entregar e os carinhas se aproveitar de mim. Aí decidi que até sairia, desde que me pagassem. Mas não tinha coragem de contar para meu namorado, afinal, eu o amava. Até que um dia acabei saindo com um amigo dele, sem eu saber. O carinha sabia que eu namorava o Marcelo* (nome fictício). Como meu namorado morava em São Paulo, achei que ele jamais iria descobrir. O amigo contou, mas o Marcelo não acreditou. Até que um dia o amigo dele marcou de novo para sair comigo, só que quem apareceu foi o Marcelo. Meu chão caiu, fiquei super envergonhada. Eu queria parar de sair com os carinhas, afinal, tinha encontrado alguém que me amava de verdade e que não me queria só para sexo. Me apaixonei, mas o dinheiro era fácil. E eu era viciada em maconha. Eu cobrava R$ 300,00. Saía com três carinhas de uma vez e ganhava R$ 900,00. Meu namorado, apesar de amá-lo, não tinha como me bancar com o emprego de motoboy que ele tinha. Ele ficou super chateado, se sentiu super traído. E ele tinha razão. Depois que contei para ele tudo o que rolava, por incrível que pareça, ele acabou se interessando. Disse que naquela semana tinha acabado de perder o emprego e que estava desesperado, pois tinha as parcelas da moto para pagar. Ele me pediu para continuar. Achei super estranho isso, me senti explorada por ele. Mas como eu o amava e para não o fazer sofrer com a falta de dinheiro, continuei. A gente entrava na internet para buscar clientes. Ou era eu sozinha ou íamos como casal, pois tem casais que gostam de trocar de parceiros. E pagam mais. Ele acabou pegando gosto pela coisa e começou a fazer programas sozinho com as coroas. Hoje somos casados, temos uma linda filha e é um passado que queremos apagar de nossas memórias. Me prostituir foi a única coisa que me arrependi de ter feito na vida”.

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