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quarta-feira, 14 de setembro de 2016

O que restou de Eduardo Cunha depois da cassação

Editorial das leituras do Guilherme Araújo, jornalista e consultor de negócios e políticas
  
Após ler e analisar dezenas de editoriais de renomados colunistas políticos pactuo do mesmo pensamento do meu amigo e blogueiro Noblat e jornalista. É indiscutível que a perda de mandato do deputado não elimina a corrupção na política, mas ajuda na luta pela ética, da qual faz parte aprovar a PEC dos partidos
A votação final do pedido de cassação do deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) não prometia qualquer surpresa. Se houve alguma foi à magnitude da avalanche de votos pela volta dele à planície dos cidadãos comuns, sem foro privilegiado. Um sério problema para o ex-deputado, porque passou a ficar ao alcance do juiz federal Sérgio Moro, de primeira instância, um dos pólos da força-tarefa da Lava-Jato, em que o político é investigado e já virou réu.
Os 450 votos contra ele quando eram necessário 257 denunciam o clássico movimento de abandono de quem cai em desgraça, em busca de outro núcleo de poder. Hoje, o Planalto de Michel Temer. Mas a causa básica da débâcle de quem chegou à Câmara com um estilo de atuação nas sombras, para galgar a presidência da Casa e sonhar com vôos mais altos, foram os atos de corrupção investigados na Lava-Jato e o uso sem limites dos instrumentos de poder da presidência da Casa em benefício próprio, para tentar barrar o processo por quebra de decoro que o levaria à cassação.
Por isso, a pedido do MP, o Supremo o afastou do cargo e suspendeu o mandato. Eduardo Cunha mentiu de fato à CPI da Petrobras ao garantir não ter contas bancárias no exterior. Ao chegarem às provas do Ministério Público da Suíça, o deputado forjou a história da carochinha dos trusts, titulares imateriais de contas cujo dinheiro ele e a família usufruíam em viagens ao exterior.
É indiscutível que a cassação não remove as fundações do fisiologismo e clientelismo que existem na vida pública brasileira, cujas causas se tornaram estruturais. A cassação, no entanto, ajuda, e muito, na luta contra essas mazelas. Sem considerar a coincidência emblemática e feliz de a perda de mandato haverem ocorrido horas depois da posse da ministra Cármen Lúcia na presidência do Supremo Tribunal Federal, numa solenidade que escapou dos cerimoniais enfadonhos para ser vigorosa demonstração de compromisso de combate à corrupção na mais alta Corte da Justiça e na cúpula do MP.
Houve, nos debates que antecederam a auspiciosa votação contrária a Cunha, quem dissesse que em torno do agora ex-deputado havia um embate entre “direita” e “esquerda”, “conservadores” e “progressistas”, com estes saindo vencedores. Balela. Ocorreu, na verdade, algo muito além desse reducionismo: a Câmara se curvou a legítimas pressões da sociedade contra a roubalheira, à esquerda e à direita.
Muitos que acusaram o “conservador” Cunha foram aliados dele quando o PT cevava ampla base parlamentar com os mimos do fisiologismo. Importa, agora, o Congresso tratar das reformas para consertar a economia, e aprovar a proposta de emenda à Constituição dos senadores tucanos Ricardo Ferraço (ES) e Aécio Neves (MG), aprovada ontem na CCJ do Senado, para cauterizar dois dos principais focos da degradação da política brasileira: a multiplicidade de partidos sem representação, a ser reduzida via cláusula de desempenho  um mínimo de votos nacionais e regionais para a legenda ter acesso à representação parlamentar plena, e o fim das coligações em eleições proporcionais, pelas quais o eleitor elege quem não conhece.

Eduardo Cunha e outros não surgiram por acaso.


Fonte: Noblat

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